08 Maio 2026 | Mônica Herculano
Quando a plateia entra em cena
Executivos do cinema analisam o potencial e os limites das experiências coletivas dentro das salas
“Tem uma diferença entre gente mal-educada numa plateia estar contra um filme e gente na plateia estar com o filme", afirmou o diretor Kleber Mendonça Filho em um post que teve 46,5 mil curtidas no Instagram. Ele falava sobre as exibições de Michael (Universal), cinebiografia de Michael Jackson que estreou no final de abril, já se tornou fenômeno de bilheteria global e levou o cantor novamente ao primeiro lugar dos rankings de streaming de música - segundo a plataforma de análise de dados Kworb, que compila o Global Digital Artist Ranking.
Mas, para além dos números e das polêmicas - como tudo que envolve o Rei do Pop -, o longa trouxe à tona um debate que também muito interessa aos exibidores: o comportamento do público nas salas de cinema. Isso porque notícias sobre pessoas dançando e cantando durante as sessões começaram a surgir por todo o mundo. E, junto com elas, também relatos e registros em vídeo de brigas (!).
Entre os mais de mil comentários no post do diretor de O Agente Secreto (Vitrine Filmes), a grande maioria defende que a experiência de assistir a um filme pode - e até deve, em alguns casos - ser mais participativa. Inclusive remetendo a tempos atrás. “Meu avô era projecionista e conta que, quando exibia filmes dos Beatles, as meninas gritavam", lembrou um seguidor. “Até hoje não esqueço da sessão de E.T no cinema do Largo do Machado, na Galeria Condor do RJ. Era criança com medo, criança correndo do E.T, adulto chorando, adulto gritando", contou outro.
Mas também houve comentários contra: “Na sessão que eu fui, foi falta de educação mesmo. Gente que se sentou no assento de outra pessoa e não quis sair, mulher interagindo com o MJ na tela achando que ele ia responder pra ela. Fizeram a extensão da sala deles e isso não é coletividade"; “A ‘experiência coletiva’ que temos visto para esse filme não é exatamente algo saudável, ou emoção sentida em conjunto, mas uma baderna, com gente brigando, querendo aparecer de alguma maneira, e ninguém vê o filme. Se não se vê o filme, não há razão para ir ao cinema”.
O fato é que nem todos os públicos buscam o mesmo tipo de interação, como pontua Gonzalo Lopez, gerente geral da rede Multicines, do Equador. “Na Multicines entendemos que esse tipo de conteúdo, especialmente aqueles com uma base de fãs tão sólida, gera uma conexão emocional diferente com o público. Embora dentro da sala mantenhamos o foco tradicional de exibição para garantir a melhor experiência audiovisual, apostamos em criar momentos especiais ao redor da sessão.”
No caso de Michael, assim como tem acontecido no Brasil e em outros lugares do mundo, eles desenvolveram pequenas ativações e experiências prévias para que os espectadores se conectassem com o conteúdo antes de entrar na sala. Segundo Lopez, isso gera um valor diferenciado e potencializa a experiência da tela grande sem alterar a dinâmica habitual durante a projeção.
Em Córdoba, na Argentina, a vivência tem sido parecida. Nos Cines Dino teve flash mob e a única avant-première fora de Buenos Aires, com bailarinos, grupos de fãs, espectadores fantasiados e cantando nas sessões. Adriano Ortiz, diretor geral da rede, conta que, independentemente do volume final de bilheteria, já se tinha uma ideia clara de que Michael e O Diabo Veste Prada 2 (Disney) seriam acontecimentos sociais em 2026, tornando-se eventos.
“Particularmente, acredito que é algo pontual, mas como fato pontual todos os anos temos alguma aparição. No ano passado aconteceu com Lilo & Stitch (2002), onde iam crianças e famílias fantasiadas, ou com o fenômeno Demon Slayer (2019), com comportamentos semelhantes. Antes disso já tinha acontecido com Barbie (2019) e Dragon Ball. Acho que é um fenômeno que é impulsionado e gerado através das redes, onde o dress code, o ‘vamos dançar e nos fantasiar’ e o ‘aproveitar em comunidade ou com a nossa comunidade’ tornam isso mais visível", analisa Ortiz.
De fato, já faz um tempo que alguns filmes também deixaram de ser apenas filmes para se tornarem eventos. E isso explica parte desse comportamento, segundo Marcelo Forlani, sócio-fundador do Omelete, grupo especializado em cultura pop e criador da CCXP. “Quando o Capitão América convoca os Vingadores, quando os três Homem-Aranhas se encontram, tudo isso é a concretização de anos de construção. E isso é gostoso quando acontece, mas também gera efeitos negativos. Nem todo filme tem de ser visto com essa perspectiva. Há muitos que tem no silêncio o seu grande momento. E isso deveria ser respeitado também.”
Para ele, fenômenos como Michael não necessariamente marcam um ponto de virada no comportamento do público nas salas, aproximando sessões de cinema da lógica de um evento ao vivo. “As cinebiografias musicais já vinham fazendo isso antes, com pessoas cantando em sessões de Bohemian Rapsody (2018), Rocketman (2019) ou Gal (2023). Mas o que deveria ser cada vez mais incentivado por aqui são as sessões de sing-along, como se vê com frequência em cineclubes de grandes centros. Em eventos assim, as pessoas já sabem que é liberado cantar e dançar sem medo ou vergonha, e ninguém pode se sentir incomodado”, diz Forlani.
Cantando no cinema
Aqui no Brasil já tivemos experiências de sing-along, como em exibições de Guerreiras do K-Pop (Netflix). Nelas, o público é convidado a cantar e dançar junto com o filme. “Foi muito legal ver fãs vestidos de personagens, cantando na sala, se emocionando, buscando essa relação, usando as redes sociais para marcar encontros, para irem juntos e cantar. Acho que a gente pode trabalhar mais essa cultura. Vários musicais vão permitir isso e essas experiências podem crescer", diz Igor Kupstas, diretor da O2 Play, distribuidora que programou a animação no Brasil.
Outro filme com lógica semelhante foi Stop Making Sense (1984), que voltou aos cinemas em 2024. “A gente queria que as pessoas dançassem, levantassem, cantassem junto, e isso aconteceu em algumas sessões. Eu acho que cada vez mais a sala de cinema tem sim que ser usada como espaço para espetáculos", defende Kupstas, lembrando também que a “cultura participativa na sala” não é nova: fenômenos como o filme cult Rock Horror Picture Show (1975) levaram fãs vestidos como os personagens para as salas, cantando trechos junto e interagindo. “Os fãs de Harry Potter vão caracterizados, os fãs de Star Wars levam o sabre de luz. Eu fiquei muito feliz quando vi que os fãs do Minecraft (Warner) reagiram jogando pipoca em algumas cenas. Os donos dos cinemas ficaram muito irritados, porque fazia muita sujeira, mas era uma molecada tomando a sala para si, interagindo, fazendo festa, e eu acho que o cinema tem que ser isso também.”
Em Córdoba também houve sessões de sing-along com Guerreiras do K-Pop. Ortiz não acredita que seja um parâmetro que influencie no balanço anual de bilheteria, mas ajuda a visibilizar que o cinema é uma experiência social compartilhada - algumas vezes mais próxima de um show ou de um evento de moda. “Isso nos diferencia ainda mais das plataformas, e é aí que eu vejo o verdadeiro potencial", reflete.
Os limites do coletivo
O CEO da Centerplex, Marcio Eli Leão de Lima, também cita Vingadores - Ultimato (2019) e Homem Aranha - Sem Volta para Casa (2021) como exemplos de que uma possível tendência de participação maior da audiência já vinha sendo demonstrada no Brasil. “Isso é muito bom e mostra cada vez mais que o público quer uma experiência participativa dentro das salas.”
No entanto, alerta ele, toda nova experiência deve ser estudada e até testada. “A ideia de ter somente a exibição do filme tem seu público, mas para trazer mais pessoas para os cinemas vamos ter que criar essas novas experiências e ver como cada cinema, em determinada cidade, em determinado bairro, vai se comportar e qual tendência vai seguir", afirma, relacionando com o exemplo de que há regiões onde filmes legendados têm mais adesão, em outras são os dublados e em algumas isso se mescla, por haver potencial para ambos os formatos. “O exibidor precisa entender o que seu público gosta mais, se um evento pode ser feito diariamente, semanalmente ou, quem sabe, mensal. Estudar o público hoje em dia é fundamental para se ter um complexo com resultado", avalia Lima.
Gonzalo Lopez segue nesta linha. Para ele, o planejamento, a sinalização clara e a gestão adequada das expectativas são fundamentais. Por isso é importante oferecer alternativas: sessões tradicionais para aqueles que priorizam a imersão e o conforto, e exibições especiais para audiências que desejam uma participação mais ativa. “Dessa forma, é possível inovar nos formatos sem comprometer a qualidade da experiência cinematográfica para todos os espectadores", analisa o equatoriano.
Assim como Marcelo Forlani, Lopez não vê uma mudança generalizada no comportamento dentro da sala. “Do nosso ponto de vista, trata-se de fenômenos pontuais ligados a determinados conteúdos e fandoms muito específicos, que abrem oportunidades interessantes para inovar na experiência cinematográfica. O equilíbrio está, então, em desenhar experiências segmentadas e bem comunicadas.”
Para Adrian Ortiz, o maior desafio está com a Geração Z, que como mostram estudos recentes, têm ido mais ao cinema. E isso no que se refere tanto à escolha do cinema como experiência quanto para garantir que ela seja segura. “Mas já temos um caminho de aprendizado, ainda que curto, com esses exemplos, para poder focar mais na comunicação e ‘enquadrar’ os fãs nas sessões mais direcionadas à participação e o restante do público nas sessões mais gerais", sugere o argentino.
Para Forlani, o limite está no atrapalhar a experiência do outro. Ele recorda que, assim como se vê muita gente indo a shows para ficar tirando selfies ou “documentar” cada música, é preciso ver se o comportamento não está atrapalhando os outros. “Quando alguém sobe nos ombros de alguém e atrapalha a visão das pessoas que estão atrás, sabe que pode ser xingado (ou pior). O mesmo vale para um filme. Se você começa a cantar, dançar ou conversar alto, pode atrapalhar quem gosta de curtir o filme em silêncio. Já ouvi muita gente falando que parou de ir ao cinema porque não tem sossego nas sessões de sua cidade. Ver pessoas que gostam de cinema privadas disso pela má-educação alheia é triste demais e deveria ser pauta dos exibidores.”
Fica aqui o assunto para uma próxima conversa.
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