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01 Julho 2026 | Redação

Acesso na Tela quer ajudar a fortalecer bilheterias atraindo comunidade PcD

Portal reúne informações sobre filmes com recursos de acessibilidade para cegos e surdos nos cinemas

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(Foto: Reprodução)

Se o mercado audiovisual enfrenta desafios para formar público, isso é ainda mais sensível quando falamos de pessoas com deficiência (PcD). As barreiras passam não apenas por dificuldade de acesso ou pela falta de recursos de acessibilidade disponíveis. Hoje, inclusive, já existem diversos aplicativos voltados a esse público. Mas tanto o próprio setor audiovisual quanto a comunidade PcD passam por barreiras como o desconhecimento sobre as ferramentas, a falta de capacitação das equipes dos cinemas para receber essa audiência e a insegurança sobre a experiência.
 
E isso não significa que não exista demanda. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 14,4 milhões de pessoas com deficiência, entre elas cerca de 7,9 milhões com deficiência visual e 2,6 milhões com deficiência auditiva. No entanto, de acordo com a Pesquisa Nacional de Acessibilidade nos Cinemas (PNAC), apresentada em março, 23% das pessoas com deficiência vão ao cinema menos de uma vez por ano, enquanto 55% disseram não conhecer os aplicativos de acessibilidade disponíveis.
 
“Estamos falando de um público expressivo, que também quer consumir cultura, acompanhar grandes lançamentos e frequentar as salas de cinema", diz Cassio Koide, CEO do grupo ETC Filmes – responsável pelo aplicativo de tecnologia assistiva PingPlay – e idealizador do portal Acesso na Tela, que acaba de entrar no ar. A iniciativa, sem fins lucrativos, foi criada com o objetivo de facilitar o acesso às informações sobre filmes para pessoas cegas, surdas, ensurdecidas, com baixa visão ou que utilizam recursos como audiodescrição, legendas acessíveis e Libras (Língua Brasileira de Sinais).
 
“A ideia surgiu a partir de uma dor muito concreta, percebida tanto pelos exibidores quanto pela comunidade de pessoas com deficiência. Do lado dos exibidores existe uma dificuldade em orientar o público diante da quantidade de aplicativos, recursos e informações espalhadas – nem sempre está claro qual filme está acessível e qual aplicativo deve ser utilizado. Do lado da comunidade, muitas pessoas ainda não sabem que diversos filmes em cartaz já contam com recursos de acessibilidade. E, mesmo entre aquelas que sabem, ainda existe muita dificuldade para descobrir quais títulos estão disponíveis, onde assistir e como acessar esses recursos", explica Koide.
 
Segundo ele, houve uma evolução importante nos últimos anos, com muitas distribuidoras passando a comunicar os recursos de acessibilidade em trailers, materiais de divulgação e vinhetas antes dos filmes. Mas ainda falta. “Essa é uma demanda recorrente da comunidade. O público quer conhecer os filmes antes de decidir ir ao cinema, mas muitas vezes trailers, sinopses e materiais promocionais ainda não estão acessíveis", diz.
 
Falta uma comunicação mais ampla, coordenada e contínua, tendo em vista a diversidade de atores nas cadeias do cinema e da acessibilidade: produtores, distribuidores, exibidores, empresas de tecnologia, aplicativos, órgãos públicos e, principalmente, a própria comunidade usuária. “A comunicação integrada é o maior desafio", afirma Alessa Paiva, cofundadora e diretora de estratégia da Acessara, hub de acessibilidade que participou das primeiras conversas sobre a criação do Acesso na Tela.
 
Para ela, a jornada do consumidor usuário de recursos de acessibilidade é “uma das mais terríveis e insatisfatórias” que existem no mercado de cinema. “Quem não precisa utilizar um recurso de acessibilidade, simplesmente escolhe o filme, compra seu ingresso e vai ao cinema desfrutar da experiência. Agora, para quem precisa, o caminho é bem mais complexo", lembra.
 
Esse trajeto começa por conhecer os aplicativos de acessibilidade disponíveis e descobrir qual filme está em cada um deles, mas esbarra também na acessibilidade digital. “Temos muitos fatores que fazem com que a navegação seja prejudicada. Nesse contexto, o Acesso na Tela trabalhou para uma navegação fluida, promovendo um ecossistema que realmente abraça a comunidade: com apenas um link direcionador resolve-se a dor da falta de informação primária ‘em qual app?’ e direciona-se para os canais de downloads oficiais.”
 
Outro ponto que gera bastante confusão para o público é que, pela regulamentação brasileira atual, filmes lançados em até 20 complexos de cinema não estão sujeitos à obrigatoriedade de disponibilizar recursos de acessibilidade. Na prática, isso significa que alguns lançamentos oferecem esses recursos e outros não, sem que essa diferença seja necessariamente clara para quem está procurando uma sessão. Koide explica que, para o consumidor, essa falta de previsibilidade pode gerar insegurança e dificultar o hábito de frequentar o cinema, porque nem sempre ele sabe se conseguirá assistir ao filme com autonomia.
 
Autonomia e acessibilidade real
 
Hoje, o Acesso na Tela oferece:
 
  • - Informações atualizadas sobre filmes e sessões acessíveis nos cinemas;
  • - Identificação dos aplicativos em que os recursos estão disponíveis;
  • - Links diretos para compra de ingressos;
  • - Newsletter semanal com a programação acessível em cartaz;
  • - Espaço para inclusão de trailers e sinopses acessíveis;
  • - Área de comentários para troca de experiências entre usuários.
“A nossa visão é que, quanto mais a informação chegar às pessoas, maior será o retorno para toda a cadeia. Quando o público entende que existe acessibilidade, sabe onde encontrar e tem uma boa experiência, ele tende a voltar. E, com mais uso, as tecnologias evoluem, os recursos ganham qualidade e o mercado passa a enxergar a acessibilidade não apenas como uma obrigação, mas como uma oportunidade real de ampliar a audiência", defende o CEO da ETC Filmes.
 
E para além da funcionalidade dos aplicativos e da qualidade da audiodescrição, Libras e legendas, a experiência também precisa melhorar nas salas. “Estamos baseando o avanço da acessibilidade no desenvolvimento de tecnologias digitais e, de fato, elas sempre poderão auxiliar. Mas para que os ambientes cinematográficos sejam receptivos para pessoas com deficiência, na prática, é necessário começar a investir no que se costuma chamar de 'acessibilidade atitudinal'", aponta Edgar Jaques, ator e consultor em audiodescrição.
 
Acessibilidade atitudinal é o conjunto de práticas, atitudes e comportamentos que promovem a plena participação de pessoas com deficiência da vida em sociedade, em igualdade de condições com as demais pessoas. Segundo Jaques, um processo de naturalização de pessoas com deficiência nestes espaços é o que deve tornar toda a experiência nas salas de exibição muito mais inclusivas. “Quando uma pessoa cega conseguir comprar a sua pipoca, conseguir encontrar o seu assento, mesmo que ela vá sozinha ao cinema, então estaremos mais perto da autonomia e da acessibilidade real. Quando o sujeito com deficiência for considerado no momento em que se vai implementar novas políticas em sala, ou no modo como se vende um ingresso, estaremos oferecendo um lugar acolhedor e para o qual ele vai sempre querer voltar.”
 
Por isso, os exibidores têm um papel essencial nesse processo, desde a venda até a experiência presencial. Faz parte do trabalho nesse sentido oferecer informações claras no site, aplicativo, bilheteria, totens, cartazes e comunicação dentro do cinema. “Quanto mais visível e simples for essa orientação, maior a chance de atrair e fidelizar esse público”, lembra Kiode.
 
Marcelo Lima, CEO da Tonks e responsável pela gestão do Cine Marquise, arrisca dizer, no entanto, que a grande maioria dos exibidores ainda tem dificuldades em trabalhar com a acessibilidade. “As informações são muito descentralizadas. E isso, somado ao alto índice de rotatividade de funcionários, torna bem desafiador difundir um bom serviço prestado junto à operação do cinema", aponta ele, reconhecendo que, ao mesmo tempo, sabe-se que trazer esse público de fato ajudaria a aumentar a renda das salas. "O desafio é que essa transformação vai avançar em passos muito lentos se continuar do jeito que está. Sem um ponto central de liderança, coordenação e investimento em divulgação, cada exibidor tenta resolver esse problema sozinho quase que como autodidata, e muitos deixam de fazê-lo de fato", alerta.
 
Trabalho coletivo é o mote do Acesso na Tela. Com a plataforma no ar, agora o trabalho será entender como o público utiliza, quais informações são mais importantes e onde estão as principais dificuldades. “A partir disso, vamos priorizar novas funcionalidades, melhorias de navegação, ampliação de conteúdos acessíveis e novas formas de integração com parceiros", explica Koide. E as parcerias serão fundamentais nessa construção. “Queremos que distribuidores, exibidores, organizações, associações e agentes do mercado abracem o projeto conosco", convida. “O objetivo é chegar ao maior número possível de pessoas e contribuir para que a acessibilidade no cinema seja cada vez mais visível, simples e presente na vida do público.”
 
“Uma vinheta falando sobre o site nos cinemas, por exemplo, seria uma boa maneira de divulgar o trabalho de todo mundo que produz os recursos de acessibilidade", sugere Jaques, indicando também a importância de divulgar o Acesso na Tela em espaços físicos e digitais onde as pessoas com deficiência estão. Ele lembra, por exemplo, que o WhatsApp é uma rede de comunicação muito mais frequentada por pessoas com deficiência do que o Instagram ou o TikTok.
 
Para a CEO da Acessara, criar uma cultura do acesso e manter uma comunicação consistente ao longo da jornada do público é condição essencial para ampliar a adesão e produzir indicadores de impacto mais coerentes e confiáveis. “Com a adoção da ferramenta, iniciativas mais robustas de divulgação das acessibilidades, aliadas à comunicação e ao atendimento anticapacitista, certamente os indicadores de frequência nas salas terão resultados positivos.”




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