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24 Julho 2026 | Yuri Cavichioli

Estudo mapeia consumo audiovisual no Brasil e revela diferenças entre cinema e streaming

Levantamento da Tomun aponta crescimento das produções nacionais nas salas e perda de espaço nas plataformas

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(Foto: Divulgação)

Em 2024, os cinemas brasileiros venderam 11 milhões de ingressos a mais do que em 2023. Destes, nove em cada dez foram comprados para assistir a produções brasileiras. Com isso, a participação do conteúdo nacional nas bilheterias passou de 3,0% para 10,5%. Nas plataformas de streaming, por outro lado, as obras nacionais perderam presença nos catálogos e nos rankings Top 10. Os dados são do estudo “O que o Brasil assiste”, que será lançado nos próximos dias pela empresa de inteligência de dados para o audiovisual Tomun, reunindo informações sobre a oferta de conteúdo e as escolhas do público no cinema e no streaming entre os anos de 2023 e 2024. 



O levantamento combina bases públicas com classificações e métricas próprias, como o monitoramento do streaming e pesquisa com usuários de recursos de acessibilidade. Para o cinema, utilizou os dados de bilheteria da Ancine e do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA), cruzados com a classificação de gênero cinematográfico de cada título – recorte que, destaca a empresa, não consta nas estatísticas disponíveis sobre o setor. 

A animação dominou as salas em 2024, com quatro em cada dez ingressos vendidos. Entre os filmes nacionais, a biografia foi o gênero mais visto em 2023, com a comédia assumindo a ponta no ano seguinte. Dramas somaram o maior número de títulos em cartaz, mas pouco mais de um em cada dez superou a marca de dez mil ingressos. Já o terror está entre os gêneros mais fortes do mercado e possui a maior quantidade de títulos acima da marca de dez mil espectadores – mesmo fora de franquias ou propriedades intelectuais conhecidas: 66 dos 100 longas lançados no período (66%). Mas a produção brasileira do gênero ainda é pequena: apenas 13 títulos nacionais chegaram às salas nos dois anos analisados. 

E apesar de muita gente relacionar terror e suspense, há diferenças claras entre os dois gêneros: enquanto o terror coloca personagens em situação de vulnerabilidade diante de uma ameaça maior, tendo a sobrevivência como principal motivação, o suspense constrói a tensão pela forma como organiza e revela as informações ao espectador. E a pesquisa identificou que os números acompanham essa distinção: dos 42 títulos de suspense analisados no período, apenas dez (23,8%) superaram a marca de dez mil ingressos .

Para Fernando Cabral, fundador e analista da Tomun, os números também contrariam uma percepção recorrente nos ambientes de desenvolvimento e investimento audiovisual: "Uma das descobertas que mais nos surpreendeu foi a diferença entre a percepção do mercado e os dados sobre o suspense. É muito comum ouvir, em pitchings e reuniões, que se trata de um gênero comercial. No entanto, ele está entre os que menos vendem ingressos nos cinemas brasileiros". Segundo ele, no streaming, o suspense aparece muitas vezes como recurso narrativo de obras de ação, e não necessariamente como aquilo que o público procura.

A metodologia do estudo considerou tanto o gênero principal quanto os secundários de cada obra. Minha Irmã e Eu, por exemplo, é classificado como comédia com elementos de aventura, assim como O Auto da Compadecida 2. Com esse critério, a Tomun identificou que a aventura esteve presente em 70,1% dos ingressos vendidos em 2023 e em 68,7% em 2024. No caso do streaming, os gêneros aparecem de forma mais equilibrada entre os conteúdos de maior visibilidade. A principal diferença está justamente no suspense, responsável por 21,7% do público das salas nos dois anos analisados, contra cerca de 33,7% dos pontos nas plataformas.

Aline Zambrini, sócia e diretora executiva da Tomun, explica que o levantamento considera o público total de cada produção, sem analisar a sustentação das obras no circuito exibidor: "A pesquisa se aprofundou no estudo de gênero cinematográfico, mas não teve como foco a permanência dos títulos nas salas. A análise considera o público total, independentemente de a obra ter ficado uma ou cinco semanas em exibição."

A pesquisa também investigou quem ocupa o centro das histórias brasileiras, e identificou que protagonistas negros apareceram em cerca de três de cada dez obras nacionais nos dois anos, tanto nas salas quanto nas plataformas. No eixo de acessibilidade, mais de dois terços dos participantes disseram já ter deixado de assistir a alguma produção devido à ausência dos recursos necessários.

Impactos para o mercado

Para Zambrini e Cabral, se uma rede de cinemas precisasse extrair apenas uma conclusão do estudo para orientar sua programação, seria: investir em produções brasileiras. Na avaliação dos pesquisadores, o desempenho dos títulos nacionais no período da pesquisa mostra que o cinema brasileiro não apenas redistribui o público entre lançamentos, mas amplia o mercado ao atrair novos espectadores para as salas. Por isso, eles defendem que incluir produções nacionais com potencial comercial representa uma oportunidade de crescimento para os exibidores, ao mesmo tempo em que diversifica a oferta ao público.

Embora o estudo da Tomun contemple o período de 2023 a 2024, levantamentos mais recentes apontam cenário semelhante em outros mercados. Conforme mostrou o PORTAL EXIBIDOR ao repercutir o relatório anual da União Internacional de Cinemas (Unic) – associação comercial que representa operadores de cinemas e suas associações nacionais em 39 países da Europa –, as produções europeias responderam por 31,4% dos ingressos vendidos no continente em 2025, com diversos países ampliando a participação de seus títulos nacionais nas bilheterias.

No streaming, no entanto, a presença de produções brasileiras diminuiu entre 2023 e 2024. O número de longas nacionais nos rankings Top 10 caiu de 91 para 48. Considerando também as séries, a redução no total de obras brasileiras que chegaram às listas foi de 17,2%, enquanto, isoladamente, as produções seriadas recuaram 3,8%.

“Nossa pesquisa não analisou diretamente as estratégias editoriais ou de aquisição dos serviços, mas aquilo que ganhou maior visibilidade para o público: os títulos presentes nos rankings e a composição dos catálogos”, explica Cabral. Por isso, segundo ele, não se pode afirmar que houve uma mudança deliberada de estratégia. “Ainda assim, os resultados são preocupantes. Entre os longas, a queda foi de 47,2%, de 91 para 48 aparições. Nos catálogos, desconsiderando a Apple TV+, a oferta total cresceu cerca de 15%, impulsionada principalmente por conteúdos estrangeiros. Ao mesmo tempo, a participação brasileira recuou de 9,3% para 8%. Isso indica perda de espaço relativo tanto entre os títulos mais vistos quanto no conjunto disponível aos assinantes.”

Para analisar o streaming, a metodologia adotou o conceito de visibilidade, calculado a partir da posição e do tempo de permanência nos rankings da Netflix, Amazon Prime Video, Globoplay, Apple TV+, HBO Max e Paramount+. Como os serviços não divulgam dados completos de audiência, as listas não permitem medir diretamente o número de visualizações, mas funcionam como indicador do desempenho ao longo do tempo.

Para Zambrini, a inteligência de mercado pode ser combinada à experiência dos profissionais responsáveis pela programação, especialmente na avaliação de projetos sem franquias conhecidas, grandes campanhas publicitárias ou bases consolidadas de fãs. “Acredito que os exibidores tomam decisões com base na experiência e nos dados disponíveis, mas, acima de tudo, orientados pelo que parece mais seguro. Vivemos um período de grande aversão ao risco, no qual títulos com histórico comprovado de público, marcas conhecidas ou forte investimento em marketing tendem a receber mais espaço.” 

A análise estratégica do mercado, segundo a executiva, pode ajudar a identificar oportunidades menos óbvias, reduzir incertezas e construir programações mais diversas sem comprometer a sustentabilidade do negócio. Além disso, pode ajudar a valorizar a experiência de ir ao cinema. “O desafio não é apenas convencer alguém a assistir a uma obra específica, mas transformar a ida às salas em hábito. Quando o público valoriza o espaço, a atmosfera e a experiência coletiva, retorna não apenas por um lançamento, mas porque gosta daquele programa”, avalia.

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